/> Πρωτεύς: Raduan Nassar - Lavoura Arcaica ( I )

8 de abril de 2011

Raduan Nassar - Lavoura Arcaica ( I )

Arcaico (arc-; arché; ἀρχή). Tanto o que está mais recuado quanto o que está mais profundamente enraizado. Arcaico diz em nossa língua e de acordo com sua radicação grega, o que é primordial, ao mesmo tempo o mais antigo e o mais elementar: raiz e semente. Princípio, no duplo sentido que se conservou em Português. Arcaico é o que sustenta o tronco, mas também donde o tronco brota, atravessa a terra e chega à luz. Diz de uma antiguidade que não é somente um tempo remoto, prolongamento exaustivo do agora, senão outra duração, outra era em tributo a qual os homens devem queimar holocaustos e erguer totens. Mas, dizendo o que é mais antigo, diz também o que está já há muito ultrapassado – todos os tipos de arcaísmos -, aquilo sobre o qual repousa toda “tradição” em sua decrepitude. Daí que se por um lado o “arcaico” evoque o princípio intemporal da fundação (a semente para o tronco), também evoca o ultrapassamento inevitável que o tempo impõe a todas as coisas (tronco apodrecido e carcomido de insetos).

“Lavoura Arcaica” — um título ambíguo para a ambígua obra de Nassar[1]. Estória que retoma arque-tipos fundamentais de nossa cultura, a lógica equívoca da tragédia e libera o caos (chaos χάος,) contido e sempre prestes a eclodir por sobre toda ordem (social, econômica, sexual, política, cognitiva). “No princípio era o caos” ou como diz Hesíodo: τοι μὲν πρώτιστα Χάος γένετ᾽[2]”. O caos é, portanto, o mais primordial, o primeiro entre os Primeiros. Toda outra ordem (De Gaia, de Urano, de Cronos, de Zeus) é sempre um sobrestamento do caos, seu afastamento temporário e, contudo, sua manutenção recôndita: era de confusão dos Gigantes, era da vaidade dos olímpicos.  

Entre a ordem e o caos. É aqui que devemos situar o movimento de Lavoura Arcaica; movimento da estória, mas também da escrita. Motivo trágico por excelência, a reviravolta, a curva forçada sobre a linha de fuga (do bode expiatório) implicará a degradação do edifício das rígidas formas. Não mais o equilíbrio precário entre Apolo e
Dionísio, mas a irrupção do caos, por sobre a embriagues, contra o que ela preservava: a ordem do Pai, ordem do tempo, ordem do mundo.

Muitos foram os trabalhos a relacionar o romance de Nassar à tragédia. Tal relação, contudo, ora recorre ao dionisismo de Nietzsche ora apela ao edipianismo freudiano. De um lado, o tema da embriagues num contexto estético e metafísico; do outro, o erotismo e o tabu do incesto a partir das categorias psicanalíticas. Nem um nem outro nos parecem satisfatórios e, contudo, há ainda que se recorrer à tragédia para pensar esse romance num outro sentido: estrutural, lógico, mas também existencial.

Outra é a correlação analógica entre a fuga e retorno de André e a parábola do filho pródigo (o bom filho, se assim se pode dizer como Nick Cave[3]). Correlação muito óbvia em certo sentido, mas muito difícil decifrar em outro. Pois, afora a ordem de semelhanças que tornam Lavoura Arcaica uma quase paródia da parábola bíblica, há toda uma multiplicidade de diferenças que a desviam do conteúdo cristológico. Assim, é justamente no entrecruzamento, ou melhor, na sobreposição do diagrama da parábola e do diagrama da tragédia (retorno X purgação) que encontraremos a especificidade da estória de Nassar: retorno que corrompe a necessária via da purgação; purgação que elide a morada, destino do retorno.

Rembrandt. O retorno do filho pródigo.1669
Reencontraremos em um André-Édipo, mas mais primordialmente ainda em um André-bode, o motivo trágico por excelência da Partilha (moira) entre duas ordens e o que nesse conflito ameaça todas as ordens. Conflito entre a liberdade e a tradição, dizem alguns e, se bem que não caiba desdizê-los, conflito mais arraigado entre a ordem dos homens e as ordens exteriores que o circunscrevem (dos deuses, das bestas) que nos afasta da visão tranquilizadora do retorno à morada.  

De modo que são essas nossas coordenadas, tão boas quanto quaisquer outras. A via de leitura ou, como deve ser a crítica, de releitura, está aberta sobre os diagramas da parábola e da tragédia de sorte que evitaremos dizer que o romance de Nassar se inspira em uma ou em outra, que aproveita-se dessa ou daquela tradição, que remete a esse o àquele mito fundador. Lavoura Arcaica é, apesar de tudo, um romance moderno e se fazemos questão de compreendê-lo a partir de certos princípios mitológicos ou filosóficos, não devemos contudo descuidar de sua inserção no horizonte da literatura moderna; na devemos, sobretudo, confundir o que pertence à literatura, como modernamente a compreendemos, do que à ela é exterior e estranho.


[1] Figura curiosa essa. Tendo publicado Lavoura Arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978), construído uma prosa singular, tendo sido reconhecido e aclamado entre nós como uma revelação extraordinária, ainda assim Nassar se retira da literatura para, como disse ele mesmo certa vez, “dedicar-se à criação” – à criação de galinhas e porcos, seja bem entendido. Que a literatura não vise mais o poder e a glória é algo que já aprendemos de Blanchot, mas que possa se exaurir inteiramente em tão pouco tempo não é de fácil compreensão. Está certo que o espanto se deve muito mais ao nosso apego à figura romântica do gênio do que a uma exigência da própria literatura. Isso, porém, não torna menos incômoda a atitude de um Nassar ou de um Rimbaud.
[2] Hesíodo. Theogonia. 116.
[3] Em 1990 Nick Cave and the bad seeds lançam o album The good son, releitura musical da parábola bíblica. Será interessante, se as condições no-lo permitirem explorar essa releitura de modo a compreender como tanto nela quanto na estória de Nassar a parábola perde seu caráter moralizante para converter-se em testemunho da angústia e desespero que cerca a existência humana.

3 comentários :

leticia ramos disse...

Essa foi a crítica que mais me fez sentir inculta até hoje. :P haha

Getulio disse...

Obrigado pelo elogio um tanto exagerado. Espero que tenha gostado do texto. abraços.

Jessica disse...

Ótima crítica!