Arcaico (arc-; arché; ἀρχή). Tanto o que está mais recuado quanto o que está mais profundamente enraizado. Arcaico diz em nossa língua e de acordo com sua radicação grega, o que é primordial, ao mesmo tempo o mais antigo e o mais elementar: raiz e semente. Princípio, no duplo sentido que se conservou
em Português. Arcaico é o que sustenta o tronco, mas também donde o tronco brota, atravessa a terra e chega à luz. Diz de uma antiguidade que não é somente um tempo remoto, prolongamento exaustivo do agora, senão outra duração, outra era em tributo a qual os homens devem queimar holocaustos e erguer totens. Mas, dizendo o que é mais antigo, diz também o que está já há muito ultrapassado – todos os tipos de arcaísmos -, aquilo sobre o qual repousa toda “tradição” em sua decrepitude. Daí que se por um lado o “arcaico” evoque o princípio intemporal da fundação (a semente para o tronco), também evoca o ultrapassamento inevitável que o tempo impõe a todas as coisas (tronco apodrecido e carcomido de insetos).
“Lavoura Arcaica” — um título ambíguo para a ambígua obra de Nassar
. Estória que retoma arque-tipos fundamentais de nossa cultura, a lógica equívoca da tragédia e libera o caos (chaos
χάος,) contido e sempre prestes a eclodir por sobre toda ordem (social, econômica, sexual, política, cognitiva). “No princípio era o caos” ou como diz Hesíodo:
“ἦ τοι μὲν πρώτιστα Χάος γένετ᾽”. O caos é, portanto, o mais primordial, o primeiro entre os Primeiros. Toda outra ordem (De Gaia, de Urano, de Cronos, de Zeus) é sempre um sobrestamento do caos, seu afastamento temporário e, contudo, sua manutenção recôndita: era de confusão dos Gigantes, era da vaidade dos olímpicos.
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Entre a ordem e o caos. É aqui que devemos situar o movimento de Lavoura Arcaica; movimento da estória, mas também da escrita. Motivo trágico por excelência, a reviravolta, a curva forçada sobre a linha de fuga (do bode expiatório) implicará a degradação do edifício das rígidas formas. Não mais o equilíbrio precário entre Apolo e
Dionísio, mas a irrupção do caos, por sobre a embriagues, contra o que ela preservava: a ordem do Pai, ordem do tempo, ordem do mundo.
Muitos foram os trabalhos a relacionar o romance de Nassar à tragédia. Tal relação, contudo, ora recorre ao dionisismo de Nietzsche ora apela ao edipianismo freudiano. De um lado, o tema da embriagues num contexto estético e metafísico; do outro, o erotismo e o tabu do incesto a partir das categorias psicanalíticas. Nem um nem outro nos parecem satisfatórios e, contudo, há ainda que se recorrer à tragédia para pensar esse romance num outro sentido: estrutural, lógico, mas também existencial.
Outra é a correlação analógica entre a fuga e retorno de André e a parábola do filho pródigo (o bom filho, se assim se pode dizer como Nick Cave
). Correlação muito óbvia em certo sentido, mas muito difícil decifrar
em outro. Pois, afora a ordem de semelhanças que tornam
Lavoura Arcaica uma quase paródia da parábola bíblica, há toda uma multiplicidade de diferenças que a desviam do conteúdo cristológico. Assim, é justamente no entrecruzamento, ou melhor, na sobreposição do diagrama da parábola e do diagrama da tragédia (retorno X purgação) que encontraremos a especificidade da estória de Nassar: retorno que corrompe a necessária via da purgação; purgação que elide a morada, destino do retorno.
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| Rembrandt. O retorno do filho pródigo.1669 |
Reencontraremos
em um André-Édipo, mas mais primordialmente ainda
em um André-bode, o motivo trágico por excelência da Partilha (moira) entre duas ordens e o que nesse conflito ameaça todas as ordens. Conflito entre a liberdade e a tradição, dizem alguns e, se bem que não caiba desdizê-los, conflito mais arraigado entre a ordem dos homens e as ordens exteriores que o circunscrevem (dos deuses, das bestas) que nos afasta da visão tranquilizadora do retorno à morada.
De modo que são essas nossas coordenadas, tão boas quanto quaisquer outras. A via de leitura ou, como deve ser a crítica, de releitura, está aberta sobre os diagramas da parábola e da tragédia de sorte que evitaremos dizer que o romance de Nassar se inspira em uma ou em outra, que aproveita-se dessa ou daquela tradição, que remete a esse o àquele mito fundador. Lavoura Arcaica é, apesar de tudo, um romance moderno e se fazemos questão de compreendê-lo a partir de certos princípios mitológicos ou filosóficos, não devemos contudo descuidar de sua inserção no horizonte da literatura moderna; na devemos, sobretudo, confundir o que pertence à literatura, como modernamente a compreendemos, do que à ela é exterior e estranho.