/> Πρωτεύς

16 de abril de 2011

Solidão


Gustave Courbet.La falaise d'Etretat après l'orage.1870

Um tempo de urgência
Arrastou minha voz até ali
Onde há muitas margaridas.
Quem as terá plantado?
                                     Não...
Ninguém as plantou.

O pássaro não canta
Por dizer seu júbilo.
O castanheiro
É robusto e silencioso.
Aqui não há vozes
Através do vento,
Tudo é renúncia
E quietude:
Sou o jardineiro 
Dessas ruínas.

8 de abril de 2011

Raduan Nassar - Lavoura Arcaica ( I )

Arcaico (arc-; arché; ἀρχή). Tanto o que está mais recuado quanto o que está mais profundamente enraizado. Arcaico diz em nossa língua e de acordo com sua radicação grega, o que é primordial, ao mesmo tempo o mais antigo e o mais elementar: raiz e semente. Princípio, no duplo sentido que se conservou em Português. Arcaico é o que sustenta o tronco, mas também donde o tronco brota, atravessa a terra e chega à luz. Diz de uma antiguidade que não é somente um tempo remoto, prolongamento exaustivo do agora, senão outra duração, outra era em tributo a qual os homens devem queimar holocaustos e erguer totens. Mas, dizendo o que é mais antigo, diz também o que está já há muito ultrapassado – todos os tipos de arcaísmos -, aquilo sobre o qual repousa toda “tradição” em sua decrepitude. Daí que se por um lado o “arcaico” evoque o princípio intemporal da fundação (a semente para o tronco), também evoca o ultrapassamento inevitável que o tempo impõe a todas as coisas (tronco apodrecido e carcomido de insetos).

“Lavoura Arcaica” — um título ambíguo para a ambígua obra de Nassar[1]. Estória que retoma arque-tipos fundamentais de nossa cultura, a lógica equívoca da tragédia e libera o caos (chaos χάος,) contido e sempre prestes a eclodir por sobre toda ordem (social, econômica, sexual, política, cognitiva). “No princípio era o caos” ou como diz Hesíodo: τοι μὲν πρώτιστα Χάος γένετ᾽[2]”. O caos é, portanto, o mais primordial, o primeiro entre os Primeiros. Toda outra ordem (De Gaia, de Urano, de Cronos, de Zeus) é sempre um sobrestamento do caos, seu afastamento temporário e, contudo, sua manutenção recôndita: era de confusão dos Gigantes, era da vaidade dos olímpicos.  

Entre a ordem e o caos. É aqui que devemos situar o movimento de Lavoura Arcaica; movimento da estória, mas também da escrita. Motivo trágico por excelência, a reviravolta, a curva forçada sobre a linha de fuga (do bode expiatório) implicará a degradação do edifício das rígidas formas. Não mais o equilíbrio precário entre Apolo e
Dionísio, mas a irrupção do caos, por sobre a embriagues, contra o que ela preservava: a ordem do Pai, ordem do tempo, ordem do mundo.

Muitos foram os trabalhos a relacionar o romance de Nassar à tragédia. Tal relação, contudo, ora recorre ao dionisismo de Nietzsche ora apela ao edipianismo freudiano. De um lado, o tema da embriagues num contexto estético e metafísico; do outro, o erotismo e o tabu do incesto a partir das categorias psicanalíticas. Nem um nem outro nos parecem satisfatórios e, contudo, há ainda que se recorrer à tragédia para pensar esse romance num outro sentido: estrutural, lógico, mas também existencial.

Outra é a correlação analógica entre a fuga e retorno de André e a parábola do filho pródigo (o bom filho, se assim se pode dizer como Nick Cave[3]). Correlação muito óbvia em certo sentido, mas muito difícil decifrar em outro. Pois, afora a ordem de semelhanças que tornam Lavoura Arcaica uma quase paródia da parábola bíblica, há toda uma multiplicidade de diferenças que a desviam do conteúdo cristológico. Assim, é justamente no entrecruzamento, ou melhor, na sobreposição do diagrama da parábola e do diagrama da tragédia (retorno X purgação) que encontraremos a especificidade da estória de Nassar: retorno que corrompe a necessária via da purgação; purgação que elide a morada, destino do retorno.

Rembrandt. O retorno do filho pródigo.1669
Reencontraremos em um André-Édipo, mas mais primordialmente ainda em um André-bode, o motivo trágico por excelência da Partilha (moira) entre duas ordens e o que nesse conflito ameaça todas as ordens. Conflito entre a liberdade e a tradição, dizem alguns e, se bem que não caiba desdizê-los, conflito mais arraigado entre a ordem dos homens e as ordens exteriores que o circunscrevem (dos deuses, das bestas) que nos afasta da visão tranquilizadora do retorno à morada.  

De modo que são essas nossas coordenadas, tão boas quanto quaisquer outras. A via de leitura ou, como deve ser a crítica, de releitura, está aberta sobre os diagramas da parábola e da tragédia de sorte que evitaremos dizer que o romance de Nassar se inspira em uma ou em outra, que aproveita-se dessa ou daquela tradição, que remete a esse o àquele mito fundador. Lavoura Arcaica é, apesar de tudo, um romance moderno e se fazemos questão de compreendê-lo a partir de certos princípios mitológicos ou filosóficos, não devemos contudo descuidar de sua inserção no horizonte da literatura moderna; na devemos, sobretudo, confundir o que pertence à literatura, como modernamente a compreendemos, do que à ela é exterior e estranho.


[1] Figura curiosa essa. Tendo publicado Lavoura Arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978), construído uma prosa singular, tendo sido reconhecido e aclamado entre nós como uma revelação extraordinária, ainda assim Nassar se retira da literatura para, como disse ele mesmo certa vez, “dedicar-se à criação” – à criação de galinhas e porcos, seja bem entendido. Que a literatura não vise mais o poder e a glória é algo que já aprendemos de Blanchot, mas que possa se exaurir inteiramente em tão pouco tempo não é de fácil compreensão. Está certo que o espanto se deve muito mais ao nosso apego à figura romântica do gênio do que a uma exigência da própria literatura. Isso, porém, não torna menos incômoda a atitude de um Nassar ou de um Rimbaud.
[2] Hesíodo. Theogonia. 116.
[3] Em 1990 Nick Cave and the bad seeds lançam o album The good son, releitura musical da parábola bíblica. Será interessante, se as condições no-lo permitirem explorar essa releitura de modo a compreender como tanto nela quanto na estória de Nassar a parábola perde seu caráter moralizante para converter-se em testemunho da angústia e desespero que cerca a existência humana.

1 de abril de 2011

(Des)enlaços VII

Cezanne. Le ruisseau affiche
Outra vez o outono fere:
O breve outono dos trópicos...

E a proximidade do corpo fere:
Teus lábios vazios de desejo.

Rastro!
Vestígio!
Memória!

Esbarro na voz
Que em silêncio pesa
A sorte da palavra não-dita
Na epifania do sublime,
Ou na certeza da miséria.

Recolho o que o passo recobre,
Asseio o busto dos mortos,
Traduzo fantasmas em rimas...
Pobres, pois a pena tenho ainda
Por diante.

***
(Des)enlaços:

I - II - III - IV - V - VI