/> Πρωτεύς: Poetica
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12 de agosto de 2012

Poética XIV




Pensa em todo tipo de poema. Que há em comum que lhes justifique o nome? Que deve ser a poesia para que tudo que assim chamamos – e sabemos ser – seja poesia? Como se pode avaliar uma metáfora onde há metáforas? Como avaliar a forma concreta das palavras, onde sua existência de imagem destaca-se sobre o fundo de um dito insignificante? Como dizer “eis o maior” ou “eis o menor”? – pois importa muito a grandeza das coisas para que possamos nos contentar com o gosto – os bilhões diversos.

Em todo poema há o com que medi-lo: o inusitado. O inusitado da metáfora, da forma, da metafísica; o inusitado mesmo da face ordinária das coisas; o inusitado do óbvio ou do incompreensível, do insondável quando o místico aí se imiscui.

Todo verso para ser grande tem de ter a virtude de só poder existir como verso, trazer em si a fatalidade de sua existência e a impossibilidade de jamais ter existido não fosse o acaso que conjurou o poeta do silêncio que deseja inutilmente.

Pois todo poeta quer o silêncio, o silêncio mais profundo e completo, o silêncio que só pode existir se escreve. Por isso, escreve o poeta, para alcançar o silêncio, para tornar-se homem, e homem somente.

E mesmo a palavra vulgar e a imagem ordinária não poderiam existir senão como verso – descoberta tardia dos que se enojaram da grandeza da forma –, porque existir não é de todo estar no mundo, mas aí estar com a fatalidade de seu reverso, coberto de acaso e rodeado de silêncio – o silêncio que é o desejo do poeta.

20 de maio de 2012

Poética XIV

Nietzsche em 1862
Poesia é música, não literatura. Esse é o nosso problema. Como é possível compor verdadeiros poemas se não temos mais paciência sequer para ouvir uma sinfonia? Não que inexista boa poesia contemporânea, como, de fato, há boa música popular, mas a diferença é abismal. São análogos perfeitos. Finalmente, entendo, ao menos, o que Nietzsche quis dizer em O Nascimento da Tragédia: sem Dionísio, as formas restam vazias e cansativas.


Então é preciso voltar e ouvir. Sim, é preciso abandonar um pouco nosso privilêgio visual para ouvir música, a música que ainda deve poder ser encontrada em alguma parte, nem que seja a música do asfalto, dos pneumáticos sobre os asfalto, da gritaria selvagem do folclore urbano.

13 de dezembro de 2010

Poética XIII

Eliot: "It is a test (a positive test, I do not assert that it is always valid negatively), that genuine poetry can communicate before it is understood"


Baudelaire : “Il y a quelque gloire à n’être pas compris.”

14 de novembro de 2010

Poética XII

A poesia deve ser compreendida como uso extraordinário de uma certa linguagem que apela para o fundamento primeiro da expressão linguística: a criação. Cada linguagem cria um mundo paralelo e o próprio mundo da percepção ao qual julgamos comumente "real" é um entre os muitos mundos possíveis. Como bem compreendeu Nietzsche, o mundo humano é uma ficção, cujo caráter não-intencional e necessário em função da Vida, facilmente deixa-se enrredar na mitologia da verdade. Na construção desse mundo, coube a linguagem aperfeiçoar e, por vezes, hipostasiar as categorias ficcionais com as quais o ser humano moldou seu mundo. Do outro lado, cabe ao uso extraordinário da linguagem revelar a ficção como ficção, amparar a multiplicidade em face da coersitiva ilusão do Ser e do Mesmo.

7 de novembro de 2010

Poética XI



“La difficulté, c'est que l'écrivain n'est pas seulement plusieurs en un seul, mais que chaque moment de lui-même nie tous les autres, exige tout pour soi seul et ne, supporte ni conciliation ni compromis. L'écrivain doit en même temps répondre à plusieurs commandements absolus et absolument différents, et sa moralité est faite de ta rencontre et de l'opposition de règles implacablement hostiles.
L'une lui dit Tu n'écriras pas, tu resteras néant, tu garderas le silence, tu ignoreras les mots.
L'autre Ne connais que les mots.
- Écris pour ne rien dire.
- Écris pour dire quelque chose.
- Pas d'oeuvre, mais l'expérience de toi-même, la connaissance
de ce qui t' est inconnu.
- Une oeuvre! Une ouvre réelle, recconue par les autres et important aux autres.
- Efface le lecteur.
- Efface-toi devant le lecteur.
- Écris pour être vrai.
- Écris pour la vérité.
- Alors, sois mensonge, car écrire en vue de la vérité, c'est écrire ce qui n'est pas encore vrai et peut-être ne le sera jamais.
- N'importe, écris pour agir.
- Écris, toi qui as peur d'agir.
- Laisse en toi la liberté parler.
- Oh! en toi, ne laisse pas la liberté devenir mot.” (Maurice Blanchot. La Littérature et le droit  a la mort)[1]


[1] "A dificuldade reside no fato de o escritor não ser apenas vários num só; cada momento dele mesmo nega todos os outros, exige tudo para si e não suporta conciliação nem compromisso. O escritor deve ao mesmo tempo responder a várias ordens absolutas e absolutamente diferentes, e sua moralidade é feita do choque e da oposição de regras implacavelmente hostis.
Uma voz lhe diz: Voce não escreverá, permanecerá nada, manterá o silêncio, ignorará as palavras.
A outra: Só conheça as palavras.
- Escreva para não dizer nada.
- Escreva para dizer alguma coisa.
- Nada de obra, mas a experiência de voce mesmo, o conhecimento do que lhe é desconhecido.
- Uma obra! Uma obra real, reconhecida pelos outros e importando aos outros.
- Apague o leitor.
- Apague-se diante do leitor.
- Escreva para ser verdadeiro.
- Escreva pela verdade.
- Então, seja mentira, pois escrever em vista da verdade é escrever o que ainda não é verdadeiro e talvez não o seja nunca.
- Não importa, escreva para agir.
- Escreva, voce que tem medo de agir.
- Deixe em voce a liberdade falar.
- Oh! em voce, não deixe a liberdade tornar-se palavra." (Maurice Blanchot. A literatura e o direito à morte)


12 de outubro de 2010

Poética X

Há um dilema que todo iniciante em arte poética deve enfrentar se quiser deixar de ser uma amador: ou o poema diz algo por si mesmo ou diz algo de seu autor. O dilema diz respeito a antinomia artificialismo X sentimentalismo. Rilke ressaltou muito bem que a poesia deve ser para o poeta uma necessidade incontornável: se alguém pode viver sem escrever, melhor que assim viva. Somente o que sente a poesia como necessidade será capaz de suportar a glória do sucesso ou a solidão do fracasso com o mesmo estoicismo; para ele, a poesia já é um fim em si mesmo.

Artificialismo e sentimentalismo são as duas vias extremas e exteriores à arte poética autêntica. A primeira é meramente tekné, produção inanimada; a segunda é mera confissão pessoal. “O poeta é um fingidor”, bem disse Pessoa, e é como fingidor e ficcionador que o poeta deve falar de sentimentos. Pois os afetos são o espírito do poético, sem os quais ele não será mais que forma destituída de sentido, mas os afetos, se devem ser obra poética, não pertencem ao poeta senão também ele como obra poética, i.e., como uma ficção. O movimento interior do qual a escrita parece afluir só adquire importância em face do "efeito de superfície" que envolve a própria noção do "estético". E Eliot pode ao certo dizer sobre as emoções que o poeta não procura expressá-las nem construí-las, mas delas fugir: "Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not the expression of personality, but an escape from personality. But, of course, only those who have personality and emotions know what it means to want to escape from these things".

4 de dezembro de 2009

Poética V

Είκώ δ̉έπενόει κιντόν τινα αίώνος ποιήνος
καί διακοσμών άμα ούρανος ποεϊ μενοντος
αίωνος έν ένί κατ΄ άριθμὸς ι̉οϋσαν αίώνιον
εικονα τούτον δή χρόνον ώνομάκαμεν. Platão

Por que as palavras não duram? Mesmos olhos e mesmas palavras se encontram somente uma vez, somente há um instante de puro gozo estético. Tudo que aqueles olhos puderem ver, verão nesse exato momento, nada lhes poderá ser acrescentado. Se a releitura se fizer imperiosa por razão de conveniência ou, pior, busca prefrustrada do prazer originário, a poesia mesma corre o risco de ser recoberta por opiniões e conceitos, no caso, igualmente alienadores do fenômeno estético. As palavras não duram em seu vigor próprio, porque o que vige desde o fundo de si mesmo não pode aparecer senão sob a mascara da natureza. Haverá, então, muita naturalidade no concatenar dos verbos e substâncias para que os olhos voltem a ad-mirá-los.

Parece que a ambivalência dessa physis despida do velho arcabouço das formas não se mostra tão sedutora, pois é justamente contra a natureza dos cometas que empenhamos nossas maiores formas. “Möch’t ich ein Komet seyn? Ich glaube. Denn sie haben/ Die Schnelligkeit der Vögel; sie bläuhen na Feuer/ Und sind wie Kinder an Reinheit.” — Esta mesma voz, porém, preferiu emudecer, descendo a abóboda como um cometa tão brilhante quanto prontamente arremessado às trevas. Mas este é o destino do cometa, porque o cometa tem a fisionomia do Dionísio, deus da alegria e das trevas. E de tantos quantos posso me lembrar, de tantos quantos foram os que assumiram essa natureza, mesmas foram também as trevas: loucura, silêncio e morte. Ficaríamos sob as barbas aprazíveis de Parmênedes, se pudéssemos. Ficaríamos sob o Sol, a venerá-lo, na clareira do mármore. Mas houve Heráclito...