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23 de janeiro de 2012

Oscar Wilde – The Ballad of Reading Goal (IV)

O. Wilde
“Na capela função não há no dia
Em que se enforca um condenado”

A partir daqui, finda a Justiça Humana, a Balada adquire cada vez mais uma tonalidade religiosa e católica – o próprio Wilde se converterá ao catolicismo em seu leito de morte – malgrado os visíveis traços de dúvida do autor quanto à Religião. O eu poético talvez nisso se antecipe ao autor que, ainda no cárcere, manifesta sua falta de fé na carta que dirigiu a Lord Douglas:

“A religião tampouco me serve de consolo. A fé que os outros têm no invisível, tenho-a eu posta no visível e em tudo aquilo que se pode tocar. Meus deuses habitam templos construídos com as mãos, e dentro do círculo de minha atual existência, meu credo é perfeito e completo, talvez demasiado completo, porque, da mesma maneira que outros que situaram seu paraíso na terra, encontrei nele não só a beleza do paraíso, mas também o horror do inferno. Quando penso na religião, sinto o desejo de fundar uma ordem para aqueles que não podem crer; a confraria dos incrédulos poderíamos chama-la, na qual, diante de um altar em que não ardesse nenhum círio, um sacerdote de coração atormentado celebrasse a missa com a hóstia sem consagrar e o cálice sem vinho. Cada coisa para ser verdadeira deve tornar-se uma religião e o agnosticismo deve ter seus ritos da mesma maneira que os tem a fé. Semeou seus mártires e deve ter a colheita de seus santos e louvar a Deus todos os dias por não ser ter mostrado ao homem. Não quero manifestações externas, nem da fé, nem do agnosticismo. Seus símbolos hei de cria-los eu mesmo, porque somente o espiritual pode adquirir forma. Se não encontrar seu segredo dentro de mim mesmo, não poderei encontra-lo nunca; se não o tenho, terei de renunciar a ele para sempre.” [De profundis; Epistola in carcere et vinculis. In: obras Completas, p. 1391)

Seja como for, a Igreja é representada de modo ambíguo, ora pela contrição do capelão nos versos seguintes do mesmo estrofe, ora pelo abandono da cova do pecador, traição da missão que lhe foi confiada:

“Não rezará ajoelhado o padre
Naquela cova desonrada,
Nem marca-la-á com a cruz bendita
Que Cristo deu aos pecadores,
Porque o condenado era um daqueles
A quem Jesus veio salvar.”

O sentido profundo dessa quarta parte da Balada é a de que somente os olhos de Cristo alcançaram o condenado, que por ele pode alcançar a redenção que lhe foi negada pela Justiça dos homens.

Os condenados, que ao meio-dia deixam “seu inferno solitário”, ocupam agora o lugar vazio do morto:

“Nunca homens tristes vi que contemplassem
Com tanta ânsia a luz do dia.

Nunca homens triste vi que contemplassem
Com tão embevecido olhar,
Aquela pequenina tenda azul
Que os presos chamam firmamento.
E as descuidosas nuvens que passavam,
Em liberdade tão feliz”

Seguem-se, em minha opinião, os mais enigmáticos versos desse poema:

“Mas entre todos nós havia aqueles
Que caminhavam cabisbaixos
E sabiam que a morte mereciam
Se pagar fossem seus pecados
Ele matara apenas um ser vivo,
Eles tinham matado o morto.

Pois quem peca segunda vez, acorda
Uma alma morta para a dor,
Tira-a de seu sudário maculado,
Fazendo-a de novo sangrar,
E a faz sangrar grandes gotas de sangue
E a faz sangrar inutilmente.”

Está certo que Wilde fala de alguns dos presos, ele diz “nós” e que “matar o morto” significa pecar uma segunda vez. Mas não é claro, de fato, o que esse segundo pecado e como ele pode suplantar em muito o crime do enforcado. Poder-se-ia dizer que o verdadeiro crime é não se arrepender das faltas passadas e repete-las, mas a contrição que os força a caminhar de cabeça baixa revela a culpa que carregam por um crime maior. Acordar uma alma morta e fazê-la sangrar inutilmente – mas que pode significar isso? Fugirei a temeridade de dizer qual coisa significam, deixando à meditação mais longa ou a solicitude de algum melhor leitor. Avante.


***


Os condenados caminham e silêncio, uns admiram a liberdade das nuvens livres, outros deixam-se vergar pelo peso de suas dívidas. Os guardas, estes vestem seu melhor uniforme, roupas limpas como sinal de sua inocência.

“Mas descobrimos o que haviam feito,
Pela cal viva em suas botas.”

Aqui uma inversão fundamental: são agora os guardas acusados pelo olhar dos presos. Ao assassínio, justo ou injusto, do criminoso, se segue outro crime: o abandono e a negação da memória e da esperança. Cobriram-lhe de cal para ardente para extinguir, do que restou de um homem, os últimos vestígios:

“E todo o tempo a cal ardente come,
A carne e os ossos seus devora,
Como de noite os ossos quebradiços
De dia come a carne mole,
Por turno vai comendo a carne e os ossos,
Mas sem cessar o coração”

M. Foucault
O Por fim, completa-se a punição desgraçado com a infâmia de seu túmulo, sobre o qual não deixaram nada crescer por três anos. Recusam lhe a rosa, a oração e a cruz. O máximo da punição que incide sobre o corpo se dá na destruição completa do corpo do condenado, como nos tempos do suplício quando o Soberano fazia reduzir ao nada aquele que lhe feriu o “corpo político”. A punição não se encerra com a morte. É preciso ainda que a Justiça persiga o morto, reduzindo-lhe à infâmia.

“[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dia carroça, na Praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumido ao fogo, reduzido a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.” [Do processo de Robert-FrançoiesDamiens, apud Foucault, Vigiar e Punir, 2009, p. 9]

E assim aconteceu:


“... Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último pedaço s brasas só acabou de se consumir às dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo.” [In: Zevares, apud Foucault, 2009, 11]


A pergunta a ser feita é: fazemos melhor do que isso? Se por melhor entendemos algo menos ofensivo aos nossos olhos e estômagos frágeis, eis que tudo melhorou consideravelmente. Ao tempo de Wilde, em que se ainda enforcavam os culpados, as atrocidades das fogueiras e dos suplícios há muito já haviam desaparecido da velha Europa. Restou a forca e a prisão. Mas a prisão já era o centro do sistema punitivo. O poema de Wilde não é sobre a forca e legitimidade da pena capital, mas sobre a atrocidade própria da prisão, o sepulcro dos vivos. O corpo que arde sob a terra, devorado noite e dia, é o análogo perfeito dos corpos encerrados entre os muros, que a expressão popular “apodrecer na prisão” bem representa.

24 de junho de 2011

Oscar Wilde - The Ballad Of Reading Gaol ( III )


“De dura pedra é o pátio dos Que Devem
Reading Goal
E altos os muros reçumantes;”

A composição de Wilde, se a quisermos tomar como um manifesto ou algo mais que uma experiência puramente subjetiva, não há de ser um manifesto sobre a injustiça. Talvez por isso mesmo devamos evitar considerá-la de modo tão grosseiro, como simples poetização do horror do cárcere ao qual Wilde foi lançado por razões que hoje nos parecem inconcebíveis. O cárcere não é um lugar de inocência. A sorte pesada de cada condenado vem carregar-ser de suas culpas, inda que inconfessáveis, de modo a que a extrema tortura de um não é senão o reflexo da incerta tortura de todos,

“Pois ninguém sabe a que vermelho inferno
Sua alma cega possa ir ter.”

São culpados todos os detentos; são “loucos, falsos, vadios”; são efetivamente “os que devem”, criaturas assombradas de culpa e remorso. Que isso não corresponda, como bem observou Nietzsche certa vez, ao que passa nos espíritos dos reais prisioneiros não é coisa de se surpreender. O poeta é um artista e sua escrita, arte. A arte pertence, como já concebia Aristóteles, ao universo dos mundos possíveis, não intentando ser o retrato fiel deste mundo e do que nele se passa. Dos possíveis o poeta escolhe os arquétipos que considera mais adequados esteticamente (o que muito varia de tempos em tempos). Poderia Wilde ter escolhido qualquer outra imagem do delinquente: criminoso-herói, revolucionário, injustiçado, puro. Quem não conhece aquela novela de Tolstói, Deus vê, mas espera,  cujo personagem é quase um Cristo em meio aos corrompidos homens? Wilde faz uma escolha e sua escolha aqui recai sobre um tema clássico mais ou menos como os pintores antes de Coubert escolhiam entre o pintável e o não pintável.

Suponho que a escolha de Wilde por criminosos culpados se deva a uma série de razões muito bem justificáveis: a ambiguidade própria aos culpados confessos que os coloca no limiar entre a danação e a promessa redentora; reposicionamento do foco da obra, que não mira ao conflito moral, mas à relação entre o indivíduo e o cárcere independentemente das razões que o fizeram estar ali.

De todo modo, a Balada de Wilde é antes uma figuração do cárcere do que de seus habitantes. A imagem poética do cárcere é construída ora por evocações do cotidiano dos homens, ora por conjurações do abismo que é este outro mundo além da fronteira da morte. O cárcere é o purgatório onde a luz e as trevas disputam as almas na grande distribuição dos vivos e dos mortos.

“E os espíritos maus que andam de noite
Dançar em frente pareciam.”

De modo a que é incerto a que mundo pertencem os condenados e antes que o destino possa a cada um dar um justo fim, permanecem eles nesse lugar tão familiar aos vivos quanto aos mortos. Tal é, para os que não veem na prisão uma punição suficiente, a tortura que dia e noite os acompanha enquanto vagam como mortos insepultos, pois como já cantava Dante:

“O pior dos suplícios é sentir-se
 morto sem acabar de morrer;
É sentir-se vivo estando morto;
E ansiando morrer continuar vivendo”


Ou Rilke ainda:

“Tod ist, wenn einer lebt und es nicht weiss
Tod ist, wenn einer gar nicht sterben känn[1]

Nesse caso, mesmo o condenado a morte, e sobretudo ele, deve ser vigiado para que não tire sua própria vida, para que não decida o que cabe a um poder superior decidir:

“A seu lado dois guardas vigiavam
Para que morte não se desse.

Ou se sentava com os que expiavam
A sua angústia noite e dia;
Vigiando-o quando ia ele chorar
E para rezar se inclinava;
Espiando-o com medo que roubasse
De sua presa o cadafalso”

Tal é a condenação daquele que matou a quem amava, permanecer por ora quase vivo e quase morto, sofrer os infortúnios deste e do outro mundo, pois o outro mundo é apenas a outra metade do cárcere de onde os espectros, sombras de sombras, são conjurados:

“Passar as vimos com caneta e momos
Quais frágeis sombras de mãos dadas,
Em tropel fantasmal rodopiando”

Por isso a prisão é este lugar não inteiramente natural, não completamente metafísico; mas lugar onde se firma a convivência e a conveniência entre os vivos e os mortos, entre os corpos condenados e os espectros amaldiçoados. Se a prisão é um túmulo, cidade dos mortos ou pequena Judeca, iluminada somente pela esperança vã de ressurreição, é justo que ali venham a conviver os perpetuamente mortos com os que se querem temporariamente mortos, os perpetuamente condenados com os que aguardam expiação. Ao fim a prisão é mesmo um limbo entre dois mundos, onde as sombras descarnadas vêm reivindicar seus corpos e os corpos condenados, dos que já perderam o próprio mundo, esperam, por isso mesmo, reconquistar suas almas.





[1] “A morte não é apenas morrer/ A morte é viver sem o saber/ A morte é não poder morrer”.

13 de outubro de 2010

Oscar Wilde - The Ballad of Reading Goal ( II )


II


Six weeks the guardsman walked the yard,
In the suit of shabby gray:
His cricket cap was on his head,
And his step was light and gay,
But I never saw a man who looked
So wistfully at the day.

I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every wandering cloud that trailed
Its ravelled fleeces 'by.

He did not wring his hands, as do
Those witless men who dare
To try to rear the changeling Hope
In the cave of black Despair:
He only looked upon the sun,
And drank the morning air.

He did not wring his hands nor weep,
Nor did he peek or pine,
But he drank the air as though it held
Some healthful anodyne ;
With open mouth he drank the sun
As though it had been wine!

And I and all the souls in pain,
Who tramped the other ring,
Forgot if we ourselves had done
A great or little thing,
And watched with gaze of dull amaze
The man who had to swing.

For strange it was to see him pass
With a step so light and gay,
And strange it was to see him look
So wistfully at the day,
And strange it was to think that he
Had such a debt to pay.

***

The oak and elm have pleasant leaves
That in the spring-time shoot:
But grim to see is the gallows-tree,
With its adder-bitten root,
And, green or dry, a man must die
Before it bears its fruit!

The loftiest place is the seat of grace
For which all worldlings try :
But who would stand in hempen band
Upon a scaffold high,
And through a murderer's collar take
His last look at the sky?

It is sweet to dance to violins
When Love and Life are fair :
To dance to flutes, to dance to lutes
Is delicate and rare:
But it is not sweet with nimble feet
To dance upon the air!

So with curious eyes and sick surmise
We watched him day by day,
And wondered if each one of us
Would end the self-same way,
For none can tell to what red Hell
His sightless soul may stray.

At last the dead man walked no more
Amongst the Trial Men,
And I knew that he was standing up,
In the black dock's dreadful pen,
And that never would I see his face
For weal or woe again.

Like two doomed ships that pass in storm
We had crossed each other's way:
But we made no sign, we said no word,
We had no word to say ;
For we did not meet in the holy night,
But in the shameful day.

A prison wall was round us both,
Two outcast men we were :
The world had thrust us from its heart,
And God from out His care :
And the iron gin that waits for Sin
Had caught us in its snare.

(Wilde, 1898)

*****

Sobre a Balada de Wilde

II

But I never saw a man who looked.”
So wistfully at the day

Por isso a Balada de Wilde não é uma ode ao sofrimento. O condenado, mesmo sob todo suplício descrito nos últimos estrofes da primeira parte, não se entrega ao desespero, nem ergue uma enganosa esperança. De algum modo ele superou seu sofrimento, e o enigma dessa superação constitui o principal mote da peça poética.


"For strange it was to see him pass
With a step so light and gay,
And strange it was to see him look
So wistfully at the day,
And strange it was to think that he
Had such a debt to pay

Nietzsche disse certa vez, e não sem razão, que o cárcere não é o lugar dos conscienciosos, que o aprisionamento não é capaz de infundir no homem a consciência da culpa, mas resulta “numa intensificação da prudência, num alargamento da memória, numa vontade de passar a agir de maneira mais cauta, desconfiada e sigilosa, na percepção de ser demasiado fraco para muitas coisas, numa melhoria da faculdade de julgar a si próprio”. Isso se aplica com certeza ao próprio Wilde, cuja encíclica De profundis, nada tem de um embate moral sobre a culpa, o pecado e a responsabilidade do castigo, mas é antes de tudo uma revolta contra  a imprudência de Lorde Douglas e a sua própria, na medida em que se deixou levar por aquele para um duelo que não poderia vencer. Wilde, o desafiador da sociedade vitoriana, conceberá em seu aprisionamento, como o destemor é punido, mas não lançará a sombra da má-consciência sobre os próprios atos e, para a surpresa de muitos, nem sobre os atos de Lorde Douglas, a quem chama para junto de si no mesmo ano em que escreve a Balada.

Mas nada disso aparece na peça poética. O real desenvolvimento dos sentimentos humanos é substituida pela construção de um mundo a parte no qual os aspectos da condição humana podem ser vislumbrados em figuras cuja vida foi totalmente inventada e, por isso mesmo, transparecem de modo mais claro e vigoroso. Este sentido da obra de arte, pelo qual Wilde elogia Balzac e critica Zola e outros realistas, resume-se nesta sua radical declaração: “Uma leitura constante de Balzac converte nossos amigos vivos em sombras e nossos conhecidos em sombras de sombras”.

Do mesmo modo, o personagem da Balada goza de uma vida férvida, um vigor inexplicável que o eleva acima de sua condição. O sofrimento é dele transferido para o expectador, daí o fato emblemático que sua experiência é narrada de fora, da perspectiva dos outros condenados que o assistem e mediam o acesso do leitor a essa figura.

A arte nada tem a ver com a vida nesse sentido, mas encerra-se no mundo particular que cria: não um mundo geral de toda a arte, mas cada novo mundo que as grandes obras desenham, como para Heráclito é o sonho de cada homem em contraponto à vigília. Ela não segue os princípios lógicos, nem se importa com a contradição; o espírito de seus personagens animados tem a mesma matéria que seus corpos, “a mesma matéria de que são feitos os sonhos” e não se deixam levar pelas leis naturais que governam a ação humana. Como os deuses de Homero, cada Quixote que a literatura traz a existência ex nihilo, compartilha com os viventes algo de humano, mas de tal modo exagerado e isolado ou associado a aspectos inconciliáveis que cada vida ficcional se converte num experimento mental similar aqueles tão ao gosto de nossos atuais cientistas da natureza – a ciência hoje assim, também, revela seu caráter poético, mas de tal modo envergonhado que muitos anos ainda serão necessários para que nossos sábios físicos compreendam que, no extremo, dividem o panteão dos poetas.

***

Os conceitos estéticos, ente eles o conceito fundamental do belo, não são algo de pré-existente, mas como fins com os quais os sentidos desenham o significado da experiência sensível, materialmente considerada, são vazios de princípio e somente se preenchem na própria experiência. A experiência determina o belo e o feio, o sublime e o grotesco, não segundo a natureza das próprias coisas, mas segundo sua participação nela: a natureza é a experiência da natureza, e o que é belo na experiência do belo não o será na experiência do horrendo, o que é vida na primavera da vida será o seu oposto no inverno.


"The oak and elm have pleasant leaves
That in the spring-time shoot:
But grim to see is the gallows-tree,
With its adder-bitten root,
And, green or dry, a man must die
Before it bears its fruit!"

E, contudo, aqui a experiência que distingue o belo e o horrendo, é, como ex-peri-ência, algo de profundamente diverso da natureza de seu objeto. A arte também tem seu limite arraigado no limite da experiência humana, coisa que faz toda memória póstuma não mais que uma pantomima de pouco interesse. Poucos grandes artistas ousam narrar a vivência extrema ou quando o fazem, seu propósito fantasioso é tão bem explicitado, que o risco dos lugares comuns é afastado pela revelação do propósito caricatural das crendices ordinárias. Mesmo as Memórias Póstumas de Machado, excluem a experiência da morte: ali a morte não tem qualquer significado relevante senão como lugar donde a vida pode ser avaliada em seu todo, seguindo-se a máxima de Montaigne, mas que nada diz de si próprio. Quanto as obras propriamente míticas, seu caráter mítico exclui, de princípio, o estabelecimento do significado humano da experiência em favor de outro sentido arraigado no universo mítico que reconstrói: desde Aquiles a falar a Ulisses, a passar pelos mortos de Dante, até o rei Hamlet, ávido de vingança. Frequentemente, ao certo, a morte não é uma experiência reconstruída pela arte, mas uma experiência dada a partir da qual certo sentido é atribuído a experiência dos viventes como o é The Raven de Poe.


"At last the dead man walked no more
Amongst the Trial Men"
Há algo nestes versos que prolonga o significado da experiência final de vida  do condenado. É que não mais andando entre os reclusos, o homem morto está livre. A morte é o limite do sofrimento. Por mais horrenda que seja a imagem do homem morto, este já nada tem a ver com o sofrimento ou seu oposto. Mors omnia solvit. Por isso não é a morte que se abate sobre o condenado o motivo do horror, não é a própria morte a condenação mais terrível senão a espera da morte, a existência, dia após dia, passo após passo em direção ao cadafalso. É a morte como rastro da morte e a condenação como rastro da condenação, que, impregnando a vida aprisionada, a faz um ensaio de morte.


***

9 de outubro de 2010

Oscar Wilde - The Ballad Of Reading Gaol ( I )

I


He did not wear his scarlet coat,
For blood and wine are red,
And blood and wine were on his hands
When they found him with the dead,
The poor dead woman whom he loved,
And murdered in her bed.

He walked amongst the Trial Men
In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
And his step seemed light and gay;
But I never saw a man who looked
So wistfully at the day.

I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
With sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
Within another ring,
And was wondering if the man had done
A great or little thing,
When a voice behind me whispered low,
'That fellow's got to swing'.

Dear Christ! the very prison walls
Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head became
Like a casque of scorching steel;
And, though I was a soul in pain,
My pain I could not feel.

I only knew what hunted thought
Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
With such a wistful eye;
The man had killed the thing he loved,
And so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold.

Some love too little, some too long,
Some sell, and others buy;
Some do the deed with many tears,
And some without a sigh:
For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die.

He does not die a death of shame
On a day of dark disgrace,
Nor have a noose about his neck,
Nor a cloth upon his face,
Nor drop feet foremost through the floor
Into an empty space.

He does not sit with silent men
Who watch him night and day;
Who watch him when he tries to weep,
And when he tries to pray;
Who watch him lest himself should rob
The prison of its prey.

He does not wake at dawn to see
Dread figures throng his room,
The shivering Chaplain robed in white,
The Sheriff stern with gloom,
And the Governor all in shiny black,
With the yellow face of Doom.

He does not rise in piteous haste
To put on convict-clothes,
While some coarse-mouthed Doctor gloats,
and notes
Each new and nerve-twitched pose,
Fingering a watch whose little ticks
Are like horrible hammer-blows.

He does not know that sickening thirst
That sands one's throat, before
The hangman with his gardener's gloves
Slips through the padded door,
And binds one with three leathern thongs,
That the throat may thirst no more.

He does not bend his head to hear
The Burial Office read,
Nor, while the terror of his soul
Tells him he is not dead,
Cross his own coffin, as he moves
Into the hideous shed.

He does not stare upon the air
Through a little roof of glass:
He does not pray with lips of clay
For his agony to pass;
Nor feel upon his shuddering cheek
The kiss of Caiaphas.

(Oscar Wilde, 1898)

***

Sobre a Balada de Wilde

I



The Ballad Of Reading Gaol é o mais célebre poema de Oscar Wilde. Nas palavras de Oscar Mendes, “sem dúvida a sua peça poética mais sincera, mais profunda, mais humana, de simplicidade mais emocionante”. Escrito na pequena aldeia de Berneval, em 1897, ano em que Wilde deixa a prisão de Reading, onde cumprira pena devido ao escândalo envolvendo Lorde Alfred Douglas. Wilde morreria pouco depois, em 1900, não sem deixar, com sua obra, um dos mais completos retratos da Era Vitoriana.

A Balada é uma impressão do cárcere, do efeito devastador do aprisionamento sobre o espírito criativo e, assim como Memórias da casa dos mortos de Dostoievski, constrói um retrato singular e ao mesmo universal dos canteiros de barbárie com os quais a civilização orna sua tranquilidade quotidiana.

Da primeira parte nos ficam versos lacônicos que toda a Justiça Humana resumem, não sob juízo de acerto ou desacerto, perfeição ou imperfeição, mas, desde a voz de um outro condenado, na constatação do que é e parece não poder ser de outro modo:

“The man had killed the thing he loved,
And so he had to die.”

Um homem bom aqui deve ver aqui somente a simplicidade da justiça; simplex signum veri: nada mais simples do que isso, que se tenha que pagar uma vida com outra. E, contudo, eis o mérito extra-poético da Balada de Wilde: afora quaisquer dúvidas sobre a culpa, a reparação e a frieza com que um homem é assassinado, não sob o atropelo das paixões, mas metodicamente, a empatia de um condenado para com outro supera em muito a singular situação do aprisionamento. Somente desde essa empatia adquirem valor os versos que se seguem:

“For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die”

Parecerá que, leviano, o poeta não distingue entre a destruição de uma vida, material e espiritual, da metafórica morte de um afeto. Presumo que os leitores familiarizados com os conflitos morais que permeiam a escrita de Wilde se absterão de tal superficialidade. Porque aqui fala não o sofrimento do que perece, mas o sofrimento duas vezes maior daquele que faz perecer algo sumamente valioso para si mesmo. É o mesmo sofrimento de um louco sobre o cadáver de seu deus; sofrimento que não deixa de ser o próprio espírito vitoriano.

O homem assassinara a mulher a quem amava em seu leito

“And blood and wine were on his hands
When they found him with the dead”.

Aqui, o antagonismo fundamental do estranho personagem — vinho e sangue; Eros e Tánatos; esperança e perdição — de dois modos manifesto: o homem matara a quem amava, enquanto ainda a amava e talvez porque a amava – o vinho é o signo do júbilo e do gozo –; o homem matara a quem amava, portanto matara também o seu amor, matara uma parte de si, e em parte já estava morto; o homem matara, era um assassino, um pecador, um condenado e justamente um desses condenados para os quais dizem veio o Cristo – vinho e sangue são esta esperança a qual tentarão lhe retirar.

O sofrimento desse homem não é o do remorso. A réplica de Wilde ao princípio retributivo da justiça humana esclarece que o maior crime desse homem é ter destruído uma parte de si próprio. Sofrimento que supera qualquer outro e do próprio poeta-condenado:

“And, though I was a soul in pain,
My pain I could not feel”

É o sofrimento que envolve e reflete a marcha errante dos homens, sua fraqueza, sua degradação; que revela, porém, a indigência que é a “falta de indigência”, a condenação que é a ausência de condenação, o assassínio cotidiano pela besta humana do homem sem peculiaridades. Porque o homem bom, o bonus pater familiae, é também um indigente e um condenado, mas porque sofre da pior indigência, como o lembra Heidegger, será a mão que acorrenta e aprisiona, que tortura e mata, metodicamente, a fim de que, enforcado após enforcado, possa apagar-se da vista a irmandade que a pretores e réus arrasta no mesmo torvelinho; porque ele, o bom homem,

“He does not die a death of shame
On a day of dark disgrace”

A Justiça Humana parece ser, assim, o que assenta cada qual em seu lugar. O que a cada um retribui, não conforme sua natureza, mas meramente ao ato. O que farão a este homem que matara aquela a quem amava, que já reconciliará crime e castigo no mesmo ato, nada tem a ver com retribuição, justiça ou direito. Dele quererão tirar toda a humanidade, todo traço que assemelhe sua caminhada sombria para o cadafalso ao passeio monótono do bom homem. Longe estará, para o condenado, a própria morte como sofrimento; ao contrário, cada dia seu será de agonia e sofrimento, sepultado vivo numa cela sem esperança de liberdade e vida, até que o que pereça sob o cordão do carrasco não seja mais que a sombra do sofrimento humano.

O destino desse homem, porém, contrasta com a vida que a proximidade do fim faz expandir com mais intensidade. O homem próximo da morte, metodicamente aproximado da morte por aqueles que sonhavam e sonham poder controlar a vida de seus quartos almofadados, é um homem revelado. Seu ser é ser-para-a-morte, não como um conceito vazio da elucubração existencialista, mas como fato: ele caminha para a morte e a morte se apodera de cada traço de sua existência; a cela escura é seu primeiro túmulo; o capelão, o xerife, o diretor, o médico são personificações de seu calvário. E, no entanto, é nele que a vida se manifesta como maior altivez:


Eu nunca homem vi que contemplasse
Com tão embevecido olhar,
Aquela pequenina tenda azul
Que os presos chamam firmamento,
E toda errante nuvem que passava
Com suas velas prateadas.”
***